Terça-feira, Julho 15, 2008
[versão indolor e abençoadamente silly de '1234' (The Reminder, 2007), encomendada a Leslie Feist para o primeiro episódio da 39ª temporada lá da rua, a estrear neste Agosto]
Segunda-feira, Julho 14, 2008
O juízo dos órfãos
Os testemunhos de sobrevivência são os exempla do nosso tempo. Não há antena ou publicação que não ofereça em cadência diária uma ou mais histórias do género. Perturba-me que tantas vezes elas sejam contadas como estando fadadas pelas qualidades inerentes ao sobrevivente. Como se não houvesse um enorme grau de imponderabilidade em qualquer desastre, batalha, ciclone. À vista disto, penso quase sempre no que pensarão os que perderam quem lutou mas foi vencido pelas circunstâncias.
quando a televisão vazia nos acerta em cheio
Pior que zapear e dar com um caso da vida bizarro de tão semelhante a um acontecimento que nos foi próximo? Não conseguir não ver aquilo até ao final, previsivelmente feliz. Que na realidade não o foi.
Segunda-feira, Julho 07, 2008
Belas, Impasse dos Pinheiros Mansos
Podia ter sido no nosso só que não foi, foi no vosso turno. Correrá tudo bem, sim, mas o entretanto é difícil, como era de esperar. Custa saber-vos toldados pela falta que ele faz. Mas correrá tudo bem.
Segunda-feira, Junho 30, 2008
London, Tottenham Court Road
"The compensation of growing old, Peter Walsh thought, coming out of Regent’s park, and holding his hat in his hand, was simply this; that the passions remain as strong as ever, but one has gained - at last! - the power of taking hold of experience, of turning it round, slowly, in the light."
Virginia Woolf, Mrs. Dalloway, 1925.
Acaba-se o mês dos dias em livro, comum a Joyce e Woolf.
Virginia Woolf, Mrs. Dalloway, 1925.
Domingo, Junho 29, 2008
Mão Mole
Mais vale um sorriso desguarnecido ou uma palmada nas costas que um aperto de mão frouxo. Que raio, em termos de coreografia social não há gesto mais poucachinho e desinspirador.
Sábado, Junho 28, 2008
Que fazer ao que nos contam? (12)
O varejo num dos pedaços a poente demorou bem mais que o costume, passava-se a hora de cear. Até ao segundo entroncamento os primos seguiram também, mas agora havia que galgar o Corgo Fundeiro. Não que fosse de aflições (ainda era pequena quando a mãe da mãe lhe tinha ensinado o conjuro quem vai, vai, quem está, está, para qualquer caso sem explicação), ou que o burro não soubesse o caminho, não era isso. Era o nenhum costume de ir sozinha por volta tão evitada. De que tivesse conta, mais contornado que aquele vale de pedra solta só o rocio da Venda, ou talvez a ponte do Estreito. Desses ainda havia quem repetisse qualquer coisa de má memória, mas dali não, ninguém parecia lembrar a razão de tal fama. Nisto, feito o vau, quando se preparava para deixar de tentear o carreiro à frente do animal, deu por um estranho brilho a meia encosta. Estacou.
Fez por respirar.
Pensou voltar para trás, mas levava mais de meio regresso. Decidiu avançar sem fixar aquela terrível espécie de favo prateado, suspensa no nada. Passou. Ia já uns bons passos acima quando não aguentou: agarrada ao arreio e a um responso involuntário, virou os olhos para o que afinal era reflexo do quarto crescente numa imensa teia de aranha, coberta de orvalho. Teria observado melhor, mas ouviu algo. Picou por aí a cima o quanto pôde, até estar segura de que o vento trazia mesmo o eco de quem gritava o seu nome. Encontraram-se quase no planalto. O regedor vinha à frente, a seguir os irmãos, os vizinhos, só depois mãe e pai - não fosse haver o pior.
Fez por respirar.
Pensou voltar para trás, mas levava mais de meio regresso. Decidiu avançar sem fixar aquela terrível espécie de favo prateado, suspensa no nada. Passou. Ia já uns bons passos acima quando não aguentou: agarrada ao arreio e a um responso involuntário, virou os olhos para o que afinal era reflexo do quarto crescente numa imensa teia de aranha, coberta de orvalho. Teria observado melhor, mas ouviu algo. Picou por aí a cima o quanto pôde, até estar segura de que o vento trazia mesmo o eco de quem gritava o seu nome. Encontraram-se quase no planalto. O regedor vinha à frente, a seguir os irmãos, os vizinhos, só depois mãe e pai - não fosse haver o pior.
Quarta-feira, Junho 25, 2008
Wee Hours
Por aqui continua a apresentar-se uma curva de aprendizagem de tipo 's'. Nada de sofisticado, pois.
Terça-feira, Junho 24, 2008
Lisboa, Praça do Chile
Facto é que os amigos demoram. Vim por aí acima a pensar que depois da empatia tem de haver muito mais, e tempo há menos - o mesmo que nos vai tirando os que conseguimos fazer. Lá está: há que teimar.
Sábado, Junho 21, 2008
Skating Around the Truth
[Winter (Little Earthquakes, 1992) Tori Amos.]
Existem outras por onde escolher, mas gosto bastante desta versão. Amos é (mesmo agora, numa fase heteronímica e transitória para sabe-se lá onde) estranhamente comovente. Ou pelo menos a mim comove-me, a capacidade de voltar por outros caminhos ao próprio cancioneiro.
Lisboa, Rua Castilho
Por várias razões todas elas tão justificadas que dá para apresentar comprovativo carimbado, não consegui ver um só jogo da selecção do princípio ao fim. Pude, porém, cruzar quarteirões à escuta deste Portugal a duas velocidades, dando por uma das únicas coisas fixes que os pobres (sans-cable) recebem primeiro que os ricos (avec-cable) - os golos.
Sexto Dia
Recebestes de graça, dai de graça.
Mt. 10, 8.
Mt. 10, 8.
Que dizer do cavalheiro que sabia versos de cor? Como honrar o homem que escolheu viver a sua vida connosco de roda? Pouco sei. A ti (que mais que todos perguntarás: quem poderá oferecer aos que vierem depois o que ele, na sua ternura meio solene, deu de tão boa vontade?) pedi uma faixa preta; a ti abracei, e cosi uma igual na manga errada (ainda bem que também quiseste vestir este passado presente); a ti, sobretudo, ouvi (falámos de nobreza, de quem como ele discretamente luta pelo que não quer ver esquecido, acho eu). Depois, chegados à música púrpura que quase todos conhecem mas só nós sabemos ter nascido aqui, falhou-me a voz.
Sábado, Junho 14, 2008
Dia Onze Mil Duzentos e Vinte e um
A mesma teima no detalhe. Maior dificuldade com a ternura. Saudades de praticar yoga. Um pouco mais no comprimento de onda do resto do mundo.
Sexta-feira, Junho 13, 2008
Quinta-feira, Junho 12, 2008
Transbordo
Estação de Entre-Gentes
À entrada da rua com nome de flor está um marco postado pelo Senado de Lisboa. Vinca o termo da capital na qual os que agora e aqui passam fazem vida, sem vagar para atentar num traço antigo, que não se vê. Os que vão e vêm por este caminho que já não é real, ou pelo caminho férreo, os que cruzam bairros nascidos sobre searas e olivais, esses vivem agora e aqui outros traços. São gente que apanha o comboio em Queluz-Belas, ou em Agualva-Cacém, gente que não lamenta horário trabalhador-estudantil, gente que preferia não ir ao Hospital Amadora-Sintra, gente que troca de metro na Baixa-Chiado, que regressa demasiado depressa pelo IC-19, gente que não se entende no seu modo luso-afro-sino-russo-brasileiro. Gente na corda bamba da urbanidade - que faz cidade entre esta estação e a que se lhe seguirá.
[Não costumo republicar o que escrevo noutras paragens (no caso, um post-encomenda para o Corta-Fitas), mas esta composição cheia de traços foi feita em espírito de lugar. Por isso aqui fica.]
Segunda-feira, Junho 02, 2008
Já que entramos no mês das quadras
, aqui fica esta de Pessoa:
O capilé é barato
E é fresco quando há calor.
Vou sonhar o teu retrato
Já que não tenho melhor.
E é fresco quando há calor.
Vou sonhar o teu retrato
Já que não tenho melhor.
É que pode não estar calor, mas finalmente bebi o meu primeiro capilé. Sempre há dias em que a discronia compensa.
Domingo, Junho 01, 2008
Da adultícia
É de manhã, dá-se pela luz esquiva, pelo vento forte. Sorri-se. Porque se vai poder despachar umas três máquinas de roupa.
Terça-feira, Maio 27, 2008
Caldas da Rainha, Praça 25 de Abril
O Insónia, de Henrique Fialho, fez três anos há dias. Gosto muito de ali passar. Gosto daquela escrita prolixa, ao ritmo das demais coisas da vida. A ele, e também aos outros colaboradores, desejo muitas letras mais.
Across The Street
Sim, quase todos guardam os céus africanos ao som de John Barry. Eu guardo sobretudo este atravessar de rua. De This Property is Condemned a Random Hearts , passando por The Way We Were, Pollack filmou algumas das grandes contracenas amorosas (e nelas, de atacado, o constrangimento, o riso, a dureza, a esperança, o não-dito) de que tenho memória cinematográfica. See ya, Sidney.
Domingo, Maio 25, 2008
Coisas Que Que Só A Mim Apoquentam LV
O meu desgovernado acordar. Detenho o que deve ser um dos mais impressionantes palmarés em encontrões e esfoladelas em maçanetas de armários, esquinas de mesas, patilhas de estores. Meia-hora a pé e ainda assim entalanços em portas, gavetas. Roupa no balde do lixo, lixo no balde da roupa. Hoje queria só arejar o quarto rapidamente, mas consegui dar um piparote no PC e defenestrar o Paulo Teixeira Pinto. Vá-lá-vá-lá, que o portátil parece bem e a Única só ficou um bocado amassada.
Sábado, Maio 24, 2008
Senhores Passageiros
, daqui fala a chauffeuse: a carreira não tem andado à tabela, mas continua em trânsito. Intentaremos repor o serviço em mais briosos níveis de qualidade.
Terça-feira, Maio 13, 2008
Queluz, Rua dos Lusíadas
[Fim de dia no supermercado. A juventude funcionária limpa as bancas refrigeradas.]
Rapagão-Assistente do Talho - Ai, que se minha mãezinha me visse de pano na mão vinha-me já buscar!
Rapagão-Chefe do Talho - Não estudaste, pois não? Atão aguenta-te, que...
Menina da Charcutaria - ...eu estudei e estou aqui à mesma!
Rapagão-Chefe do Talho - Não estudaste, pois não? Atão aguenta-te, que...
Menina da Charcutaria - ...eu estudei e estou aqui à mesma!
Segunda-feira, Maio 12, 2008
O Blogger anda tão idiossincrático
Agora é isto dos posts agendados. Se antigamente podíamos aldrabar um pouco a hora dos posts, agora podemos programar a aldrabice. E isto dá cabo de um dos aspectos mais emocionantes da coisa - a certeza de que o autor acabou de passar por ali.
Lisboa, Rua Bartolomeu Dias
No fim-de-semana, muito leiga e entusiasmada, discutia a questão da repetição em Bausch. Na verdade não me interessava a repetição em si mesma, queria apenas regressar ao preciso episódio que envolvia bailarino e bailarina à beira da plateia e sem foco de luz, enquanto outros se desenvolviam no centro e fundo do palco. Frente a frente, em silêncio e quase hirtos, começavam por votar-se exclusiva atenção. Depois, um deles deixava o olhar deslizar noutra direcção, ao que o outro respondia com a mão direita, reconduzindo o rosto oposto a olhar o seu. E a situação repetia-se inversamente: o que havia conseguido a atenção alheia deixava agora o olhar deambular, obtendo a mesma resposta que havia dado. O movimento alternado de cada mão, inicialmente subtil, ganharia dureza, aproximando-se de uma coreografia bofetada, que cederia e regressaria ao início uma e outra vez. Custa a acreditar que um fiapo de dança diga tanto sobre o amor, digo eu.
Terça-feira, Maio 06, 2008
Masurca Fogo
Ali está a Watling, duas ou três filas atrás do Grandinetti. Como não querer ver o que eles viram? Que interessa onde, ou quanto tempo depois?
Ana Bólica
Os primeiros racontos de mitologia grega que ouvi em miúda provocaram-me uma certa indignação. Não tinha como assimilar aquele cenário de volubilidade, manipulação, passionalidade e desmando entre deuses e homens - até aí só conhecia a narrativa bíblica, que apresentava mortais e imortais em coreografia bem mais hierática. Ainda hoje me exaspero ao tentar entender como pôde Ariadne ter expectativas tão exageradas em relação a Teseu, ou como conseguiu encontrar tão bom esposo em Dionísio.
